O Carácter Masoquista

28/01/2012

O Carácter Masoquista raramente surge antes do terceiro ou quarto ano de vida, não sendo, por isso, a manifestação de um instinto biológico primário, ou seja, o instinto da morte. Geralmente, o masoquista foi estruturado sob forte pressão ambiental onde a ambivalência dos pais (aprovação/desaprovação) marcou profundamente a sua vida infantil, sendo que o seu funcionamento estrutural baseia-se claramente na ambivalência.

Trata-se de um indivíduo que tem permanentemente a noção que é inadequado e de que não tem valor; quando criança foi vítima de humilhações constantes, que desvalorizaram o seu ser, vendo-se forçado a exercer actividades ou funções para as quais não estava física e emocionalmente preparado.

Possivelmente foi uma criança que sofreu com as invasões do seu corpo por um excesso de limpeza (exposição das nádegas para introdução de supositórios) ou palmadas; e a humilhação fez parte da vida dele, sendo que é ela que faz funcionar o seu Ego ou fazê-lo crer que não vale nada.
Pais com desrespeito ou sentimentos de vergonha face às funções orgânicas naturais como defecar, urinar, vomitar, geram na criança sentimentos de nojo e repúdio.

O masoquismo também pode surgir nos casos em que a mãe força a criança a comer; ou quando a mãe empurra a comida pela sua garganta adentro, e a reacção da criança é vomitar, fazendo com que a criança se sinta suja.  A mãe, na verdade, actua de forma a influenciar os sentimentos da criança, fazendo chantagem emocional. Uma vez instalado este jogo, todas as futuras acções do indivíduo serão orientadas para a submissão gerada pela culpa instalada.

As pessoas com carácter masoquista lutam para agradar na esperança que a aprovação lhes traga o amor desejado, levando-as a desapontamentos. É humilhante para uma pessoa sentir que a sua segurança e aceitação dependem do servilismo; e é isso que neste caso específico de carácter, a longo prazo, a pessoa se pode tornar: um servo.

Enquanto criança ainda poderá ser rebelde e exibir alguns traços masoquistas, mas não existe ainda a sensação de sofrimento que caracteriza o adulto com traços masoquistas na sua personalidade. Apenas quando o desejo sexual na puberdade aumenta é que a armadilha masoquista se fecha. Nesta fase os conflitos entre ódio e necessidade e conformidade e conformismo e rebeldia intensificam-se de tal forma que parecem não existir soluções. Com esforço e trabalho tenta conquistar o amor das pessoas; nega a importância das coisas materiais, mas é apegado a elas, sempre duvidando que conseguirá satisfazer-se ou estando confuso em expressar os seus desejos e vontades.

O masoquista cresceu num ambiente avesso à expressão de afecto, agindo com desconfiança à expressão de afectos dos outros em relação a si; afinal a mãe usou da sua simpatia e amor para submetê-lo à humilhação; o amor para ele é humilhação, culpa e subjugação. Na realidade, o masoquismo é o resultado de uma disfunção na capacidade de prazer e satisfação no indivíduo; isso leva-o a uma incapacidade para descarregar física e emocionalmente.

 

No carácter masoquista em termos do padrão muscular, encontramos características referentes a uma contenção interna contra o medo de a pessoa se auto afirmar; em termos de estrutura, o indivíduo defende-se contra a ameaça de ser esmagado e de se tentar auto-afirmar, pelo que é importante ter em contas nos objectivos terapêuticos levá-lo a encarar o medo da auto-afirmação que ele mascara com atitude de rebeldia e desafio.

O que mais sobressai na sua dinâmica é que o masoquista foi estruturado sob forte pressão ambiental, onde a ambivalência dos pais marcou a sua vida infantil, fazendo com que o seu funcionamento esteja também baseado nessa ambivalência.

Reich afirma que o masoquismo não é uma expressão de um instinto biológico, mas sim o resultado de uma perturbação da díade dar/receber e de uma tentativa constantemente fracassada de superar essa perturbação; surge como resultado e não como causa da neurose.

Podemos entender o problema do masoquismo e tratá-lo como sendo apenas um distúrbio caracteriológico, sendo a ambivalência e a incerteza as características da sua dinâmica comportamental; cada impulso agressivo, cada movimento, cada gesto, revelam essas caraterísticas.

Não existe uma sensação de vazio interior no masoquista, pois dentro dele existe uma constante luta e ansiedade; sente que tem muito amor para dar e muito trabalho a fazer. Apesar de uma aparente falta de jeito para se expressar, ele é muito inteligente e sensível, e a sua compreensão dos outros é precisa e penetrante; por outro lado, ignora as forças que determinam a sua própria conduta, pondo a sua inteligência ao serviço da desorganização, fazendo com que ela desempenhe um papel sinistro na sua vida.

Dadas as fortes tensões no seu corpo, o masoquista está mais predisposto a trabalhar com as “vísceras”, mas não com o coração e, consequentemente falta-lhe muitas vezes espontaneidade e criatividade nos seus projectos. É um trabalhador forçado que apenas procura aprovação constante; a longo prazo esse contínuo forçar prende-lhe as vísceras até ao ponto de ele colapsar.

Estela Rodrigues

 

Estela Rodrigues

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