Limites e liberdade – novos caminhos do corpo

28/01/2012

 

De que modo nosso sistema de auto-regulação é suficientemente consistente dentro de nosso desenvolvimento para que tenhamos sinais perceptivos claros de contenção e expansão em nosso comportamento emocional, muscular e cognitivo? Quando devemos parar ou avançar? O que determina uma boa moldura que enquadra a ação? Como desenvolvemos limites adequados? Essas questões serão utilizadas como premissas básicas para este estudo e são frutos de observação dentro da prática clínica.

1. LIBERDADE

Liberdade é um tema universal, fundamentalmente ético e intrínseco à natureza humana. Liberdade é escolher. É a escolha de viver dentro de uma moldura, de um enquadramento. E escolher é possuir e perder, na consciência de que em cada escolha desenhamos o mapa das nossas vidas.

Quando falo em enquadramento, estou me referindo a uma mediação de forças entre o ritmo interno e externo, isto é, uma regulação entre os nossos desejos e necessidades em relação à realidade externa. Este ritmo é um enquadramento que dá liberdade.

No corpo, a liberdade é um tema localizado no plexo celíaco, o diafragma. É neste plexo que se encontram as emoções básicas como o medo, a raiva e o amor. É o coração do sistema vagal, que ligado ao sistema nervoso vegetativo, produz respostas viscerais de medo, luta e fuga, ansiedade, raiva e entorpecimento, tidas enquanto respostas de sobrevivência. Ligado ao plexo solar, rege a qualidade dos relacionamentos humanos: as ligações e separações. Está associado ao prazer que deriva do profundo conhecimento do nosso lugar único, conectado, dentro do universo.

Liberdade também é ousar, inventar, persuadir, lutar. É opor-se, enfrentar, defender-se e proteger-se. É ter coragem. Para isto é necessário conhecer nosso lugar no mundo, nosso lugar seguro e nossos limites.

A compreensão, reconhecimento e negociação entre meus limites e os limites do outro, dá-me o sentimento de possuir um território que constitui um lugar sagrado, um templo. “Ocupar um espaço” é primordial para situar-se no mundo como ser vivo e a partir daí criar relações. O território do ser e da alma é o corpo ; o espaço entre o corpo e o mundo externo é definido pela qualidade da vinculação que estabeleço.

Relacionado à uma metáfora, é como um rio que deixa suas águas correrem livremente, num movimento dançarino, serpenteando suas margens contentoras e sábias, podendo percorrer quilómetros por florestas e vales e montanhas adentro. No seu trajecto, deixa suas margens férteis, para a fauna e flora do lugar. Geralmente ao lado de um rio, nasce uma cidade.

As margens feitas de terra ou pedra, servem de limites que dão suporte e estrutura para o fluir da água. Esta é uma imagem de liberdade com enquadramento. Liberdade sem margens é um barco que vai onde o vento leva. É estar aprisionado na imensidão de uma experiência de liberdade em excesso.Os estados traumáticos provocam um rompimento em nossa contenção pessoal; podem ser enchentes que criam desastres fazendo com que as margens se rompam. Fluxo sem margens constituem um vazamento energético ou podem ter uma margem alta com pouco fluxo. Experiências traumáticas representam seca ou inundação emocional.

2. LIMITES: “boas cercas fazem bons vizinhos”.

Também na prática clínica, percebo cada vez mais a incidência de comportamentos impulsivos borderlines e traduzo esta tendência com questões onde o não pensado torna-se consciência: como lido com meus limites dentro do território pessoal, corporal, com o outro? Qual minha história de privação e/ou invasão? Como defendo meus limites?
De acordo com B. SHAPIRO, o limite saudável é “a interface carregada (energizada) entre nossos impulsos infantis e a resposta adequada de nossos pais a esses impulsos. Limites fortes e saudáveis se formam quando buscamos satisfação e realização e nossos impulsos, instintos e sentimentos naturais, são adequadamente correspondidos” (SHAPIRO, 2006).
Portanto, limites saudáveis e adequados reflectem uma pulsação entre expansão para fora e conexão com o mundo e depois uma retirada para dentro de nós num isolamento saudável de contacto profundo com nossa experiência interna.
Contexto e contacto ou fluxo do mundo externo para o contexto interno é o fluxo da vida entre nós e os outros.
Podemos caracterizar os estados pulsáteis na colocação de limites em diversas expressões da vida. Dentro deste tema, focalizo: a capacidade de dar, receber e partilhar; a capacidade de expressão e contenção; os sentimentos de integridade e desintegração tão importantes nos processos de mudança (organização e desorganização) que são movimentos básicos na formação do self; a capacidade de mover-se (motilidade e mobilidade) e depois permanecer num equilibio estático.

3. CINCO CONDIÇÕES PARA FORMAÇÃO DE LIMITES.

De acordo com observações feitas, concluí que a formação de limites tem como base 5 condições apoiadas sobre os seguintes estudos : (1) vínculo e sintonia ; (2) percepção e sentidos; (3) neurociência e regulação (pulsação); (4) conceito de grounding; e (5) territorialidade.

3.1 Vínculos e Sintonia

Os bebés buscam contacto e comunicação (ou cuidados) com os adultos através de uma excitação motivada pelo impulso natural da vinculação.

Pais receptivos a estes impulsos funcionam como sondas sinápticas, e ajudam a canalizar o movimento expressivo num fluxo vegetativo contínuo (carga /descarga/relaxamento) e devolvem à criança a quantidade de excitação adequada. A construção de limites saudáveis está na interacção ritmada entre mãe e bebé nos períodos iniciais não verbais do desenvolvimento do self, formando a sua base somática. Assim o bebé vai desenvolvendo uma capacidade para se acalmar a si próprio (BOADELLA, 2005).

Os estudos de BOWLBY (1993) sobre os “estilos de vinculação” e STERN (2005) sobre a neuropsicobiologia do bebé, mostram modelos de diálogos ou “fluxos de contacto” no desenvolvimento infantil onde podem haver estados de invasão ou privação.

3.2 Percepção e Sentidos

Os limites também se influenciam pelo fluxo de informação sensorial e percepção e pela experiência cinestésica. A percepção é composta por três tipos de informação: interocepção, cujas informações surgem do interior do corpo (batimentos cardíacos, respiração e peristalse); propriocepção: surgem do tônus muscular, no movimento e na postura (esquema motor e desenvolvimento do grounding; e exterocepção: surgem do ambiente e são captados pelos cinco sentidos; a pele funciona como invólucro de diferenciação através do desenvolvimento do self e estruturação do ego na processo das relações objectais. (BOADELLA, 2005)

3.3. Neurociência e Regulação

A regulação é o aspecto mais fundamental do universo; está relacionado com padrões de organização e à manutenção das relações de ordem entre as partes e o todo, o que permite que os sistemas mudem e evoluam sem entrar em colapso.
ALLAN SHORE enfatizou em seu trabalho que o processo da vida depende da entrada, circulação e saída de energia. Quando existem falhas nesta regulação, o processo resulta numa variante entre hiper ou hipo-excitação extrema ou activação autónoma dupla. Auto-regulação é a habilidade de flexibilizar os estados emocionais regulados através da interacção com outros seres humanos e na regulação consigo próprio.

A nova neurociência interpessoal ou afetiva (KLOPSTECH, 2005), enquadra o cérebro como mediador básico para a regulação entre corpo, mente, emoção e relações interpessoais. Neste aspecto, a colocação de limites também se baseia em duas formas diferentes de estratégias reguladoras: no controle consciente do hemisfério esquerdo do cérebro e na função não verbal do hemisfério direito.

3.3.1 Pulsação

A pulsação dos elementos está em todo o universo através dos movimentos de contracção e expansão. O conceito de expansão relaciona-se à emoção (ex-movere) no sentido de dar saída a um sentimento para fora do corpo, com consequente partilha emocional e descarga (prazer). Por sua vez, a regulação permite limites estáveis, porém flexíveis, que dão a sensação de individualidade e potência. Esta é uma função energética que produz uma sensação de segurança desencouraçada, desencadeada quando a quantidade de excitação que activa o SNS (sistema activador) proporciona uma experiência de expansão ou “alegria saltitante” ou quando provoca uma contenção através do SNPS (sistema relaxador), componente que renova a energia (LISS, 2005).

3.4 Conceito de grounding

Acrescido aos vários tipos de grounding (“ postural” (LOWEN- 1953), “dos olhos” (BAKER, 1980), “dentro do útero” (LEBOYER, 1975) , “handling e holding”(WINNICOTT,1996), “instroke (WILL DAVIS, 2006 ), gostaria de incluir um autor particularmente importante para a construção de limites e sentido de liberdade. LEO VAN BUCHEN diz que “estar em pé, não significa apenas nos deixarmos sustentar pela terra, mas temos de exercer uma força contrária à força da gravidade; erguemo-nos empurrando o chão dá-nos um sentimento de força e de diminuição de impotência. Cria-se, assim, um equilibrio entre nossa propria força e todos os tipos de forças contrárias.” (BOADELLA, 2005).

3.5 Territorialidade

A angustia do espaço vazio e a apreensão do desconhecido são elementos básicos para a necessidade de marcar espaço. Dominar um território desencadeia sentimentos de satisfação e conforto aliados à vinculação do proprietário com um objecto, pessoa ou lugar. O individuo “vinculado” (comprometido) sente-se no “direito” de defender seu território.
Preencher o espaço é situar-se no mundo como ser vivo reconhecido e legitimado. Compreensão, reconhecimento e negociação entre nossos limites e os limites do outro caracterizam a demarcação do território. (ALAIN JEZEQUEL,2004 ).

CONCLUSÃO

Através destes estudos, foi criada uma estrutura de trabalho que visa refazer o desenvolvimento europsicomotor,“relembrando”o corpo de suas etapas iniciais, com modulações de movimentos reparadores, que poderão ser utilizadas em grupo e em atendimentos individuais. São exercícios que ao mesmo tempo são incentivadores aumentando a carga energética e colocados dentro de um contexto acolhedor, deixando o cliente com contacto consigo mesmo.

Estela Rubia de Paiva Rodrigues
Psicologa clínica e educacional; psicoterapeuta somática; C.B.T. e local trainer pelo Instituto de Analise Bioenergétia de São Paulo- Brasil; Trainer Júnior em Biossíntese (Portugal e Espanha) e membro do IFB- International Foundation for Biosyntesis (Heiden – Suissa); Formadora de cursos em psicoterapia corporal (responsavel pela formação T.T.P.C® (Teorias e Técnicas das Psicoterapias Corporais, Portugal –Lisboa) e Supervisora.

 

Referências Bibliográficas

BOADELLA, D., (2005) Afeto, Vínculo e Sintonia: Inspirado no diálogo com os três volumes do trabalho de Allan Schore in Energy and Character, 34, pp. 7-16.

BUCHEM, L., (2005) Movimento e Equilíbrio in Energy and Character, 34, pp. 17-28.

HALL, E. (1986) A Dimensão Oculta, Lisboa: Relógio d’Água.

KLOPSTECH, A. (2010) Catarse e Auto-regulação revisitadas: considerações clínicas e científicas. Apostila de curso interno.

KLOPSTECH, A. (2010) Que corpo é Este? Os conceitos sobre o corpo em psicoterapia. Apostila de curso interno.

LISS, J., (2005) A Neurofisiologia das Emoções e da Consciência: Uma Pesquisa Recente in Energy and Character, 34, pp. 29-37.

LOWEN, A. M.D.,(ano) A espiritualidade do corpo: Bioenergética para a beleza e a harmonia – Ed. Cultrix.

LOWEN, A., (ano) Medo da vida: caminhos da realização pessoal pela vitória sobre o medo. Summus editorial.

MAHLER, M., (1993) O nascimento psicológico da criança: Simbiose e Individuação. Porto Alegre, Brasil: Artes Médicas.

MILLER, A., (ano) O drama de ser uma criança. São Paulo, Brasil: Ed. Paz.

NASIO, J.-D., (ano) O meu corpo e suas imagens. São Paulo, Brasil: Ed. Zahar.

SHAPIRO, B., (2006) Construção bioenergética de limites. Revista Clínica do Instituto Internacional de Análise Bioenergética, 16, (1), p. 231. Ed. Libertas.

ZIMMERMANN, E. (ano) Corpo e individuação. São Paulo, Brasil: Ed. Vozes.

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