Entrevista Federação Portuguesa de Yoga – Estela Rodrigues

28/01/2012

 
Quando descobriu a Biossíntese na sua vida?

A Biossíntese entrou na minha vida como uma necessidade existencial e profissional de olhar o processo terapêutico e o indivíduo para além dos modelos convencionais; a díade terapêutica deveria ter outra abordagem e os conceitos deveriam incluir outras dimensões do ser humano. Foi minha necessidade procurar uma psicoterapia para além da verbal, que me levou às psicoterapias corporais que tiveram o seu “boom” na década de 70 e 80. Havia acabado de me licenciar em Psicologia (1978), no Brasil, e o próximo passo era procurar uma especialização para me tornar psicoterapeuta e a opção foi estudar Psicomotricidade e a seguir, um curso sobre terapia Reichiana, Bioenergética e Biodanza. Eram abordagens que incluíam o corpo de forma a provocar catarses que, para aquele momento histórico, faziam todo o sentido. Era o Movimento do Potencial Humano difundido no mundo todo.

No entanto, comecei a perceber que apesar destas técnicas serem muito úteis para um determinado tipo de população, não eram recomendáveis para outros, pois ocorria uma espécie de “desestruturação” das blindagens e couraças do indivíduo (algumas delas bastante necessárias).

Foi a partir de 1986 que fiz contacto com uma abordagem mais integral que preconizava uma máxima histórica: “o que é remédio para uns, é veneno para outros”. Com um profundo respeito à individualidade, o cliente era visto como ser único, que para além das suas dificuldades, possuía recursos e eram estes recursos que dariam um novo formato à psicoterapia.
Fiz minha formação em Portugal, assim que cheguei (há dez anos atrás), com a Dr.ª Esther Frankel que trouxe a Biossíntese para cá no início da década de 90; actualmente faço treino para formadora em Heiden, na Suiça, com David Boadella, o fundador desta corrente terapêutica.

QUAIS OS PRINCIPIOS QUE NORTEIAM A BIOSSINTESE?

Biossintese significa integração da vida. Integração de todos os níveis de competência humana, levando o individuo para uma pulsação saudável e um contacto mais intenso consigo mesmo. É uma psicoterapia somática com os seus conceitos derivados da embriologia. É uma psicoterapia pré e peri-natal. O seu conceito central é que existem três correntes energéticas fundamentais ou fluxos vitais, fluindo no corpo e ligados às camadas germinativas celulares do óvulo fecundado, a partir do qual se formam os diversos sistemas orgânicos (ectoderma, mesoderma e endoderma).
Estas correntes expressam-se num fluxo de movimento por todos os caminhos musculares; num fluxo de percepções, pensamentos e imagens que percorrem o sistema neuro-sensorial; e num fluxo de vida emocional que está localizado no centro do tronco.

Um stress antes do nascimento, durante a infância ou no decorrer da vida, quebra a integração destas três correntes.
Estas correntes, em sua essência, fazem a conexão entre pensamento, sentimento e acção.
A reintegração terapêutica trabalha com o desbloqueio da respiração e dos centros da emoção (centering), com a retonificação dos músculos e a integração postural (grounding), e com a vinculação e a organização da experiência através do contacto visual e comunicação verbal (facing).

COMO SE CONSTROI ESTA “PONTE” ENTRE CORPO, MENTE E ESPIRITO?
QUAL O PAPEL DA CORAGEM NESTA ABORDAGEM?

Quando as três correntes energéticas estão desconectadas derivado a traumas ou stress, podem ocorrer:Centralização do individuo no seu universo intelectual, imaginário, racional, desvinculando-se do seu sentimento e/ou movimento;

  • Centralização do individuo no campo das emoções, podendo deixá-lo inundado através dos afectos, sem possibilidade de organizar o pensamento e impedi-lo de agir;

  • Centralização na acção, por vezes impulsiva ou compulsiva, sem o registo interno do porque fazer (energia mental) e sem a conexão do sentimento com que a acção é feita.

As pontes corporais para o trabalho de revinculação destas correntes energéticas ocorrem entre a cabeça e a coluna (nuca), entre a cabeça e o tronco (pescoço) e entre a coluna e os órgãos internos – diafragma.

Além do trabalho somático vinculado ao emocional, entendemos o processo terapêutico como um campo sistémico e informativo que leva a presença de duas pessoas para além da discussão de suas fronteiras e dificuldades. O princípio da auto cura, a alma da terapia é a capacidade de qualquer indivíduo encontrar dentro de si suas próprias respostas, como se ele tivesse um professor interno que pode ter acesso aos seus recursos muitas vezes distorcidos por defesas egóicas. O espelho da presença do psicoterapeuta mostra-se aqui, como facilitador deste processo.

A coragem nesta abordagem, está na capacidade de, terapeuta e cliente, “dois animais num quarto” como dizia W.Reich, acreditarem na inocência do corpo e da alma; estarem imbuídos de um objectivo comum (ressonância) e entenderem o processo terapêutico mais como um mergulho iniciático de desenvolvimento pessoal, que um meio de resolução de “problemas”.

Afinal, o que são “problemas”?

Na Biossíntese, “dá-se grande ênfase no “grounding” espiritual e nos estados transpessoais, reconhecendo que o trabalho psicossomático abre conexões para além do mundo físico e que o desenvolvimento espiritual é impossível sem antes trabalhar com bloqueios somáticos e distorções de carácter do falso self.” (D.Boadella)

DE QUE FORMA É QUE A PSICOTERAPIA É UTIL PARA A COMUNIDADE E PARA O INDIVIDUO ENQUANTO PARTE DESTA?

Inicialmente, trazer à consciência de que nossas vidas são de nossa inteira responsabilidade e nesse caso, a maturidade é um coeficiente de saúde física e mental.

Quando o nosso processo de individuação acontece, o individuo deixa de responsabilizar os pais, escola, os professores, o governo, o patrão, a igreja, a vida, etc. pelas desarmonias encontradas no seu percurso de vida.

Ele é um ser que pode escolher caminhos e não ser vitima desses comportamentos.

E quando cada um cumpre o seu papel, identificado e separado de crenças distorcidas, ele contribui para a comunidade com sua felicidade, bom humor, saúde, competência e compaixão

PORQUÊ A INTEGRAÇÃO DA PSICOTERAPIA NA DANÇA DA VIDA?

David Boadella, o fundador da Biossíntese, diz que todo o ser humano tem a capacidade de localizar em seu corpo padrões de expressão e usou o termo “ressonância” para definir a relação biológica entre duas pessoas. Este conceito é melhor compreendido na experiência de vinculação entre mãe e bebé, através dos movimentos uterinos durante a gestação e também no momento do parto. Este ritmo de intimidade vinculatório entre a mãe e a criança, gera uma coreografia, uma dança, um “fluxo da alma”, nas palavras de Boadella que diferencia e singulariza cada indivíduo. Quando há ressonância, a dança é graciosa, espontânea e organiza a dinâmica do Self da pessoa.

A dança Butoh, através do seu divulgador Kasuo Onoh, traz esta coreografia com a sua filosofia de ser “dançarino”.
“A pessoa deve primeiro alcançar as profundezas da alma para depois expressá-las e para este caminho é preciso recuperar o corpo do ventre materno. Comece a dança a partir do útero de sua mãe e não pense nisto, apenas sinta-o”

QUAL A RELAÇÃO ENTRE ESSÊNCIA E EXISTENCIA, O INTERIOR E O EXTERIOR DO INDIVIDUO?

Ainda pelas palavras de Onoh, “não devemos controlar o nosso corpo, mas deixar que a nossa alma respire a vida para dar vida à nossa carne”.
Essência e existência são expressões de coerência. É construir pontes de acesso aos recantos mais sombrios do nosso ser.
Muitas vezes a expressão de nossas necessidades está condicionada a factores externos, a movimentos estereotipados; esta dança, bem como toda a fundamentação da Biossíntese, leva-nos à consciência do conhecimento real de nossas motivações, possibilitando fazer uma ponte entre meditação e expressão espontânea, centramento, enraizamento e vinculação.
Deixar-se mover pela alma e criar uma ponte entre o espaço interno e externo. Quanto maior o grounding, tanto mais livre poderá ser esta expressão.

DONDE É QUE SURGE A LIGAÇÃO A ANTÓNIO DAMÁSIO?

Falamos em factores “psicossomáticos”, ligação “mente-corpo”, “campo energético”, traumas intra-uterinos, já há muito tempo, mas onde estavam as pesquisas científicas que comprovavam nossas premissas?

António Damásio, Allan Shore e outros, fazem pesquisas na relação das emoções e suas localizações cerebrais, e a influencia dos sistemas vegetativos nos nossos humores e comportamentos. É a chamada “neuropsicobiologia”, que através de seus livros mostram os resultados de seus estudos nas relações de vinculação entre mães e bebes, e como isto interfere no nosso comportamento ao estabelecer relações com as pessoas e formatar as nossas separações, ou com que emoções nós nascemos (as básicas são: medo, aversão, tristeza, raiva, felicidade e surpresa); como se formam os nossos sentimentos e como temos acesso cognitivo a eles.

Pesquisas do comportamento do embrião durante a fase gestacional e nos primeiros de vida da criança, são de importância fundamental para a compreensão de reacções patológicas na vida adulta.
Entre uma infinidade de outras informações, estas pesquisas validam cientificamente o embasamento teórico da nossa prática terapêutica.

O QUE ACHA QUE VAI ACONTECER NA SOCIEDADE COM O SURGIMENTO E CONHECIMENTO DA BIOSSINTESE?
PORQUÊ APOSTAR NA BIOSSINTESE EM PORTUGAL?

A Biossíntese é a integração da vida. Como fonte integradora, busca a harmonização de diferentes aspectos da consciência humana. De acordo com David Boadella, “o trabalho bio-espiritual que a acompanha, também é um trabalho político: ocupa-se com a solução de conflitos, a comunhão entre raças, nações e pessoas, respeitando as particularidades de cada cultura. Também é um trabalho ecológico: cuida do planeta como corpo da natureza e vê o indivíduo como uma célula no organismo do mundo.”

Allan Shore, demonstrou que o simples contacto visual de uma pessoa para outra altera a química do cérebro e provoca mudança no sistema energético de cada uma delas: esse contacto visual gera luz, como se a pessoa fosse iluminada. As hormonas funcionam melhor depois de um bom contacto visual.

Olhar para o outro é olhar para a qualidade de vida de cada um de nós e esta qualidade depende da capacidade de percebermos e satisfazermos adequadamente as nossas necessidades humanas fundamentais: subsistência, protecção, afecto, compreensão, participação, lazer, criação, identidade e liberdade.

Portugal e o mundo passam por uma modificação espantosa, num ritmo acelerado; a forma de estarmos a melhorar a nossa qualidade de vida é ter mais consciência do que somos, do que fazemos, como fazemos e criarmos um sentido para as nossas vidas; criarmos um campo de possibilidades onde possamos acreditar que todos temos recursos e estes podem ser utilizados para nosso bem próprio e para iluminarmos a nossa visão em relação ao outro.

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