Da “profundidade” à “superficialidade” da couraça na visão de Wilhelm Reich

28/01/2012

A couraça carateriológica é o elemento que se interpõe entre o mundo externo e o interno, algo que se vai formando no processo de articulação entre o que é herdado e adquirido com as nossas próprias  fases de desenvolvimento infantil. Pode ser comparada a uma membrana celular, ou então, a uma ameba que endurece a sua periferia, não permitindo a troca com o meio, não sendo flexível o suficiente para fazer trocas necessárias, de onde podemos inferir que o grau de flexibilidade está directamente ligado à saúde mental e física do indivíduo.

Um indivíduo normal terá um carácter flexível, regido pelo princípio do prazer e da realidade; tal e qual a pupila do olho que se contrai ao receber um estímulo luminoso, realizando um acto mecânico defensivo, os indivíduos interagem com o meio, enfrentando situações adversas reagirá diminuindo o contato, retraindo-se; já face a uma situação normal, esse contato com o mundo externo aumentará, expandindo-se frente aos objetos. Na realidade, o carácter saudável se contrairá frente a perigos reais, enquanto que o cronicamente neurótico, continuará contraído independentemente de perigos reais.

Tal cronicidade impede o indivíduo de contrair-se o suficiente para se proteger; não apenas a expansão do prazer fica prejudicada, como também a contração adequada e necessária diante dos perigos reais; o lugar onde se forma a couraça caracteriológica é aquela parte da personalidade que se encontra no limite entre o ‘Instinto Biopsicológico’ e o ambiente, ou seja, o Ego.

Podemos considerar o sistema carateriológico como substituto humano do aparelho instintivo nos animais; uma vez que, a energia tenha sido canalizada de certa forma, a acção produz-se como fiel expressão do carácter, que, em sua modalidade determinada pode ser indesejável do ponto de vista ético, mas que pelo menos permite actuar com relativa consistência, poupando-nos de ter de tomar a penosa tarefa de ter sempre de decidir em novas situações. Podemo-nos acomodar à vida com a nossa forma de ser, criando, assim, um certo grau de compatibilidade entre a situação interna e a externa, permitindo que o indivíduo trabalhe consciente e razoavelmente bem.

A formação do carácter serve ao propósito económico de aliviar a pressão do reprimido. Em alguns casos, o encouraçamento produz-se na superfície da personalidade e, em outros, na profundidade. No caso do ‘Encouraçamento Profundo’ a aparência manifesta da personalidade, não é a expressão real da mesma, mas somente algo parecido com ela – é o que, por exemplo, se opera no carácter histérico. Já o ‘Encouraçamento Superficial’ é típico do carácter obsessivo-compulsivo que se caracteriza pelos bloqueios afectivos, assim como do carácter paranóico-agressivo.

A profundidade dependerá das condições em que ocorreram as regressões e as fixações do ego na própria relação com os pais e o triângulo edípico de que Freud falava. Reich não nega que os tipos de reação tenham por trás uma base hereditária; o recém-nascido e o feto, têm ambos um temperamento formado desde a concepção, sendo que o ambiente irá exercer grande influência no seu desenvolvimento, determinando que disposições serão reforçadas, modificadas ou inibidas. Já a origem das estruturas básicas provém do conflito na relação com os pais, tanto quando há resolução desse conflito, quer haja retenção.

 

Estela  Rodrigues

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