As Resistências em terapia: Egosintónicas e Egodistónicas

28/01/2012

 

Existem classificações básicas a respeito das resistências, embora Rëich não tenha citado de uma forma enfática essas diferenças e nos tenhamos que guiar por Freud. É claro que tais características estão ligadas à estrutura caracteriológica. Vamos destacar as diferenças entre Ego Sintónico e Ego Distónico de forma a que se percebam quando a pessoa resiste ao seu próprio processo terapêutico.

1. Resistências do Ego Sintónico: quando estamos diante de um paciente, cujo funcionamento do Ego é sintónico, podemos dizer que ele sente prazer com o sintoma que apresenta. Esse sintoma incomoda o outro, mas não a ele. As resistências que vai apresentar caracterizam-se por serem parte dele; são-lhe familiares porque são racionais e intencionais; o paciente, no entanto, não percebe a função da resistência, logo a aliança do trabalho terapêutico torna-se bem mais difícil; geralmente são resistências bem enraizadas que se transformaram em padrões habituais de comportamento, funcionando como parte do carácter, ou seja, o carácter consome tais energias, tornando-as traços de carácter.

Tipos de Comportamento:
1. Formação Reactiva;
2. A atuação é repetitiva, comportamento habitual;
3. Resistências Caracterológicas;
4. Atitudes Contra Fóbicas;
5. Desejos Encobertos;
6. São resistências do tipo Narcisista;

Exemplo de um Caso Clínico: um paciente que durante 2 anos de terapia chegava sempre 5 minutos adiantados; diversas vezes o terapeuta chamou-lhe a atenção para o fato; o paciente dava desculpas das mais variadas, dizendo que aquela referência não era importante para ser analisada; o terapeuta deixou isto de lado e foi por outro caminho para rodear a resistência. Um dia o terapeuta disse que se iria se atrasar na sessão seguinte e o paciente nada disse. Quando entrou para a sessão estava nervoso e agitado; disse ao terapeuta que estava furioso pelo seu atraso, acusando-o de tê-lo torturado deliberadamente porque ele sabia o quanto ele (paciente) detestava atrasos. Mesmo sabendo que o terapeuta iria estar atrasado, quis retardar a sua chegada, mas não conseguiu. Sentiu-se impulsionado por uma força irresistível para, também nesse dia chegar 5 minutos antes. Durante a espera não conseguiu ficar sentado e inclusive pensou em ir embora, mas desistiu diante da ideia quando se encontrou com o terapeuta no corredor, fazendo-o pensar que se dirigia à casa de banho. Na verdade tinha chegado 5 minutos antes para poder ir aí sem correr o risco de encontrar o terapeuta primeiro. O terapeuta interpretou que o paciente actuava de forma contra-fóbica, ou seja, antecipava a fobia de encontrar o terapeuta na casa de banho. O medo não era novo, sempre esteve lá, mas disfarçado com a acção compulsiva de chegar 5 minutos antes.

Reconhecimento das reacções:
a) Atitude Repetitiva;
b) Atitude Contra-Fóbica;
c) Desejos Encobertos;

2. Resistências do Ego Distónico: Quando estamos diante de um paciente cujo sintoma não lhe traz prazer. O paciente se sente incomodado com o sintoma e as resistências parecem remotas, inadequadas e estranhas ao Ego racional; como consequência, tais resistências são relativamente fáceis de serem identificadas e manejadas; o paciente irá estabelecer, num pequeno prazo, uma aliança terapêutica com o terapeuta.

Exemplo de um Caso Clínico: Aquele rapaz que fala ansiosamente sem parar, sem respirar, procurando preencher todo o espaço com um despejar de fragmentos de fatos não relacionados. Quando o terapeuta, após 3 ou 4 sessões, interrompe e aponta a sua ansiedade em falar, mostrando que ele parece evitar qualquer tipo de silêncio, o paciente poderá dizer que sente medo de ficar sem falar, para o terapeuta não dizer que ele tem resistência e, com isso, sentir alguma crítica por parte do terapeuta. Como podemos verificar, as Resistências egodistónicas são facilmente detectáveis. Quando o paciente apresenta resistência do tipo egosintónico precisamos, antes de mais nada, transforma-las em resistência do tipo egodistónico, isto quer dizer que enquanto as resistências não se transformarem em algo estranho no paciente, será muito difícil analisá-las.

Reich procurou resolver este problema, dizendo que as resistências do tipo egosintónicas pertencem ao carácter, ou seja, são resistências que se encobrem através do carácter e, que o carácter do indivíduo como um todo, consome essa energia desviada para as resistências; enquanto o paciente não as sente como sintomas ou seja, como algo que o incomoda e o faz sofrer, será difícil eliminar o seu valor psíquico-neurótico; enquanto não transformarmos um traço de carácter em sintoma, o individuo irá contínua e narcisicamente dizendo: “EU SOU ASSIM”.

 

Geralmente no início da terapia trabalhamos com resistências Ego­distóicas, por serem mais fáceis de se lidar. Só após o paciente ter estabelecido uma aliança terapêutica, é que podemos começar a trabalhar comassuas as resistências Egosintónicas. Estas estão presentes desde o início, mas de nada vai adiantar enfrentá-las porque o paciente irá negar a sua importância ou vai dizer coisas sem sentido.  Antes é preciso ter realizado algum trabalho com a resistência Egodis­tónica que está envolvida na queixa do paciente, ou no motivo pelo qual ele procurou o tratamento; pelo menos isto deverá estar claro para ele não negue ao terapeuta que algo o incomoda, porque senão não estaria ali. Existe “algo” que o incomoda, a ponto de levá-lo a procurar tratamen­to, e uma resistência do tipo Egodistónico que está emergente, embora existam as principais, do tipo Egosintónicas, que estão escondidas por trás de tudo isso.

Também existem resistências do tipo latente, que são atitudes do paciente que não se manifestam de modo directo e imediato, como são exemplo as expressões da dúvida, do desconfiar, da lentidão , do silêncio, da teimosia ou da apatia; essas manifestações geralmente aparecem de forma indirecta, com docilidade, ou então encontram-se ausentes, através de completa ausência de resistências manifestas; quando estamos perante este último caso, trata-se de uma perigosa resistência negativa escondida.

Reich dizia que tratava de atacar logo essas resistências assim que as descobria, pois havia aprendido com a pratica que perdemos o efeito terapêutico das informações analíticas quando essas resistências permanecem intocáveis. Como as resistências aparecem em todo o percurso do tratamento e nas formas mais variadas e sutis, serão dados alguns exemplos: O fato de o material de um paciente revelar conteúdo inconsciente, impulsos instintivos ou lembranças reprimidas, não exclui a possibilidade de uma resistência importante estar em acção ao mesmo tempo.

Podemos destacar alguns exemplos como:

Atrasos – Não Comparecer Às Sessões – Esquecer de Pagar: são tudo indicações de uma relutância para vir ou para pagar e sessão; pode ser consciente ou inconsciente, mas deve ser tratado com o paciente para que ele expresse as suas verdadeiras intenções ao invés de racionalizá-las. Se o paciente racionalizar essas resistências não devemos continuar a analisá-las até que fique bem claro e evidente que ele evita tocar no assunto. Se esse ponto for atingido podemos abordar a fonte subjacente da resistência. O paciente que se esquece de pagar, não esta apenas relutante em dar o seu dinheiro, mas também, inconscientemente, tentando negar o seu relacionamento com o analista como sendo “unicamente profissional”.

Ausência de Sonhos: quando os pacientes esquecem os seus sonhos, estão obviamente resistindo à recordação deles; esses pacientes têm um grau de resistência menor porque chegaram a se lembrar ao acordar e depois esqueceram; já outros, que nunca se lembram de seus sonhos ou de alguma vez terem sonhado, possuem um tipo de resistência ferrenha, porque aqui, a resistência não só conseguiu atacar o conteúdo do sonho, como também a lembrança do sonhado. Pacientes que contam sonhos mas cujo conteúdo indica fuga da análise (ir para outro terapeuta, ou ir parar num consultório errado) são formas de resistência; os sonhos são o meio de acesso mais importante para o inconsciente, para o reprimido e para a vida instintiva; o acto de esquecer é uma indicação da luta do paciente para não revelar seu inconsciente e, em particular, para não revelar seu inconsciente ao analista. Se o analista conseguir vencer uma resistência numa determinada sessão, o paciente pode reagir, sendo capaz repentinamente de se lembrar de um sonho que até então estava esquecido. Inundar a sessão com muitos sonhos é uma outra variedade de resistência e poderá indicar o desejo inconsciente do paciente de continuar o seu sonho na presença do analista.

Tédio: demonstra que o paciente está a evitar consciencializar-se dos seus anseios instintivos e das suas fantasias; se está entediado, isto quer dizer que arranjou uma maneira de bloquear a percepção consciente de seus impulsos e, para substitui-los, apresenta uma tensão vazia, característica do tédio. Quando um paciente está trabalhando bem com o analista, está ansioso para sair em busca de suas fantasias; o tédio, qualquer significado que possa ter, é uma defesa contra as fantasias in¬fantis. Quando o analista entra em tédio, poderá estar indicando que ele está bloqueando as suas fantasias em relação ao paciente; Trata-se aqui de uma reação contra-transferencial, mas também se pode dar o caso que o paciente esteja resistindo e que o analista ainda não se apercebeu disso conscientemente, fazendo com que o paciente fique insatisfeito, inquieto e entediado.

 

Estela Rodrigues

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